By Eduarda Esteves
No ltimo dia 17 de agosto, um grupo de mulheres afegs foi s ruas em oposio volta do Talib ao governo do Afeganisto. Somos mulheres, queremos nossos direitos: segurana, educao e participao poltica, declararam as manifestantes na ocasio. Elas seguravam cartazes em frente a um comboio do grupo extremista e pediam: Queremos trabalhar! Nenhuma fora vai sufocar as mulheres.
Com o retorno do grupo fundamentalista ao poder, aps a retirada das foras americanas, os direitos conquistados pelas afegs nos ltimos 20 anos esto em risco e elas sabem disso. Mas a resistncia das mulheres do pas no algo novo.
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Criada no ano de 1977, a Associao Revolucionria das Mulheres do Afeganisto (RAWA, sigla em ingls) a mais antiga organizao de mulheres do pas que luta pela liberdade, democracia e justia social, alm de denunciar a violncia contra a populao feminina local.
A fundadora do grupo foi Meena Keshwar Kamal, que nasceu no ano de 1957, em Cabul, a capital do pas.
Na poca, os estudantes da capital e de outras cidades afegs participavam de movimentos sociais emergentes que buscavam a garantia de mais educao e direitos s mulheres, principalmente o de exercer atividades polticas.
Em 1979, a Unio Sovitica invadiu o Afeganisto e deu incio a uma guerra que durou quase uma dcada, matando mais de cem mil soldados e deixando cerca de 2 milhes de vtimas entre os civis.
Antes da invaso dos soviticos a RAWA lutava apenas pelos direitos das mulheres, mas com o novo poder no pas, as integrantes do movimento se envolveram diretamente na resistncia pela defesa da democracia. A cada ano, a opresso poltica aumentava e para que as mulheres afegs tivessem esses direitos garantidos, Meena iniciou uma campanha contra as foras russas presentes em territrio afego. Ela organizou inmeras reunies em escolas, faculdades e na Universidade de Cabul para mobilizar a opinio pblica.
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As manifestaes contra os invasores soviticos e seus fantoches e, mais tarde, contra os fundamentalistas tem sido uma marca registrada das atividades polticas da RAWA. Foi em consequncia de sua luta e agitao ocupacional anti-sovitica que a RAWA foi marcada pela aniquilao dos soviticos e seus comparsas, enquanto os fundamentalistas islmicos expressaram sua ira contra nossa organizao por nossa postura pr-democracia, pr-secularista e anti-fundamentalista, diz um texto de autoria da associao, no site oficial do grupo.
Em 1981, as mulheres conseguiram lanar a revista bilngue Payam-e-Zan (Mensagem das Mulheres, na traduo para o portugus) e por meio da publicao, o movimento passou a divulgar as causas da populao feminina afeg. A revista j condenava a natureza criminosa dos grupos fundamentalistas.
Meena tambm fundou as Escolas Watan para crianas refugiadas, um hospital e centros de artesanato para mulheres refugiadas no Paquisto com o objetivo de apoiar financeiramente mulheres afegs.
No final do ano de 1981, a convite do governo da Frana, Meena representou o movimento de resistncia afeg no Congresso do Partido Socialista Francs. Na poca, a delegao sovitica no Congresso, liderada por Boris Ponamaryev, saiu da sala enquanto Meena comeou a fazer o sinal V de vitria.
O trabalho social ativo de Meena na associao pelos direitos das mulheres desagradou muita gente, Ela foi assassinada por agentes da KHAD (a organizao afeg da KGB) e seus parceiros fundamentalistas em Quetta, no Paquisto, em 4 de fevereiro de 1987.Traduo de parte de um poema de Meena:
Eu nunca retornarei
Eu sou a mulher que acordouEu ressurgi e me tornei a tempestade das cinzas das minhas crianas queimadasEu ressurgi das marcas do sangue dos meus irmosA clera da minha nao me deu forasMinhas vilas queimadas e arruinadas me encheram de dio contra o inimigoOh compatriota, no me julgues fraca e incapaz,Minha voz se juntou a milhares de mulheres ressurgidasMeu punho se juntou com punhos dos meus compatriotasPara acabar com todo esse sofrimento, todas as formas de escravidoEu sou a mulher que acordouEu encontrei o meu caminho e nunca mais retornarei.
O legado de Meena permanece vivo
Mas nem a morte de Meena foi suficiente para abafar a luta social das mulheres afegs. O seu legado permanece vivo at hoje na associao, que continua ativa. Em uma entrevista realizada por ativistas do Movimento de Mulheres Curdas com Samia Walid, integrante da RAWA, ela contou que a organizao luta contra os fundamentalistas islmicos afegos e seus apoiadores internacionais at hoje.
Nossas atividades polticas incluem a publicao de nossas revistas e artigos e a mobilizao de mulheres para obter essa conscincia e se juntar nossa luta. Coletamos e documentamos os assassinatos, estupros, saques, extorses e outros crimes desses senhores da guerra em partes remotas do Afeganisto. Nossas atividades sociais esto fornecendo educao s mulheres (no apenas aulas de alfabetizao, mas conscincia social e poltica sobre seus direitos e como alcan-los), ajuda de emergncia, criao de orfanatos e atividades relacionadas sade, explicou Samia.
Atualmente, a RAWA ainda trabalha na clandestinidade na maior parte do Afeganisto, mas enfrenta enormes dificuldades. Para garantir a segurana das ativistas, todas as integrantes usam pseudnimos. Apesar dos obstculos, a associao acredita que possvel continuar com as atividades polticas na maior parte do pas, devido ao contato com os habitantes locais.
Aps o retorno do Talib ao poder, nas ltimas semanas, o grupo conversou com a organizao Misso das Mulheres Afegs. Na entrevista, as integrantes disseram que durante anos, a RAWA se manifestou contra a ocupao dos EUA no Afeganisto.
Nos ltimos 20 anos, uma de nossas reivindicaes foi o fim da ocupao dos EUA/OTAN e ainda melhor se eles levassem os fundamentalistas islmicos com eles e deixassem nosso povo decidir seu prprio destino. Esta ocupao resultou apenas em derramamento de sangue, destruio e caos. Eles transformaram nosso pas no lugar mais corrupto, inseguro, da mfia das drogas e perigoso, especialmente para as mulheres, disse.
Sobre as recentes entrevistas em que o grupo extremista diz que vai respeitar os direitos das mulheres, desde que elas respeitem a lei islmica, a associao diz que totalmente descrente desse cenrio.
A mdia corporativa est apenas tentando colocar sal nas feridas de nosso povo devastado, eles deveriam ter vergonha de si mesmos da maneira como tentam adoar o Talib brutal. O porta-voz do do grupo declarou que no h diferena entre sua ideologia de 1996 e a de hoje. E o que eles dizem sobre os direitos das mulheres so as frases exatas usadas durante sua regra sombria anterior: implementar a lei Sharia, explica.
O maior medo das ativistas que o mundo esquea o Afeganisto e as mulheres afegs como durante o regime sangrento do Talib no final dos anos 90. Vamos levantar nossa voz e continuar nossa resistncia e lutar pela democracia secular e pelos direitos das mulheres. Para realizar doaes e apoiar o movimento da associao, s entrar neste link.

