The Revolutionary Association of the Women of Afghanistan (RAWA)
RAWA


 

 

Global Resarch, April 12, 2017

A Associao Revolucionria das Mulheres do Afeganisto (RAWA) sobre Crimes de Guerra dos EUA no Afeganisto

“Os Estados Unidos cometeram crimes hediondos no Afeganistão na década passada, matando milhares de pessoas inocentes em ataques aéreos e incursões noturnas, e torturando afegãos inocentes em seus locais negros dentro de suas bases”

Por Edu Montesanti

A Associao Revolucionria das Mulheres do Afeganisto (RAWA, na sigla em ingls), organizao clandestina e independente de mulheres afegs que atuam no anonimato em favor dos direitos humanos, especialmente feministas, luta contra quatro inimigos em solo afego: os senhores da guerra da Aliana do Norte colocada no poder pelos Estados Unidos em 2001, a ocupao norte-americana, o Taliban, e o Estado Islamita recm-surgido.

A representante da RAWA, que se identifica como Friba, concedeu esta entrevista sobre a situao de seu pas h 15 anos de ocupao dos Estados Unidos sob promessa de promover liberdade, igualdade e justia. A voz de Friba, que representa a dos mais de 30 mil afegos inocentes assassinados e mais de 100 mil feridos por atos de terror e crimes de guerra desde outubro de 2001, enfrenta srios riscos em um pas historicamente estratgico para as grandes potncias, e dos mais efervescentes do planeta hoje.

RAWA demonstration

A militante afeg traz luz fatos ocultados pela mdia predominante que explicam a atual conjuntura global, especialmente as causas do terrorismo e as reais intenes do Imprio agonizante em promover guerras, e perpetuar ocupaes militares. Os Estados Unidos no se interessam pela prosperidade do Afeganisto. Instabilidade, insegurana, pobreza, analfabetismo e outros problemas sociais e econmicos profundamente enraizados, ajudam os Estados Unidos e seu governo fantoche a permanecer no poder, afirma a entrevistada, direto de Cabul.

Os Estados Unidos cometeram crimes hediondos no Afeganisto na dcada passada, matando milhares de pessoas inocentes em ataques areos e incurses noturnas, e torturando afegos inocentes em seus locais negros dentro de suas bases, afirma a pacifista ao comentar a Guerra ao Terror que, apenas nos primeiros meses, matou muito mais inocentes que nos ataques em solo norte-americano h 15 anos, que apenas tem gerado mais radicalismo e violncia no Oriente Mdio, e em todo o mundo.

A seguir, a situao afeg vivida por dentro segundo a combativa lder da RAWA, uma das tantas heronas annimas de um dos pases mais pobres e oprimidos pela propalada Operao Liberdade Duradoura dos Estados Unidos e da OTAN, formulada nos pores do poder global para levar caos e servir como pretexto para uma guerra sem fim.

Edu Montesanti: Por favor, fale sobre a RAWA e as dificuldades que seu pas enfrenta hoje.

Friba: A Associao Revolucionria das Mulheres do Afeganisto a mais antiga organizao das mulheres no Afeganisto, a qual luta por liberdade, democracia, justia social e secularismo.

A fundadora da RAWA foi Meena, quem formou este grupo ainda jovem, em 1977, com a ajuda de algumas outras estudantes universitrias em Cabul. Meena foi assassinada em Quetta, Paquisto em 1987 por agentes do KHAD (sucursal afeg da KGB), com a ajuda do grupo fundamentalista sanguinrio de Gulbuddin Hekmatyar. Ela tinha apenas 30 anos de idade.

O que distingue a RAWA de outras associaes o fato de que somos uma organizao poltica. Quando a RAWA foi fundada, o Afeganisto estava sob a opresso do governo fantoche da Unio Sovitica e, posteriormente, da invaso russa, e Meena percebeu que a luta por independncia, liberdade e justia era inseparvel da luta pelos direitos das mulheres.

Depois do martrio de Meena, a RAWA deu seguimento luta contra os fundamentalistas islamitas afegos e seus apoiadores internacionais, o que faz at hoje. A RAWA ainda atua na clandestinidade na maior parte do Afeganisto, e enfrenta enormes dificuldades.

Os lderes jihadistas, senhores da guerra com passados sangrentos de crimes horrveis, esto no controle do atual governo e do parlamento, e tem seus domnios separados em diferentes partes do Afeganisto. Abdullah Abdullah, o chefe de Estado do Afeganisto, um desses lderes jihadistas que pertence ao grupo criminoso de Shorae Nizar.

Isso cria uma situao perigosa para ns j que esses bandidos, nossos maiores inimigos, no param de dificultar nosso trabalho e nos prejudicar. Em outras partes do Afeganisto, onde os fundamentalistas talibans esto no controle, a RAWA enfrenta a mesma opresso. Todas as nossas ativistas usam pseudnimos por precauo, e nunca podemos aparecer em pblico com nosso trabalho.

Apesar destes obstculos, ainda possvel continuarmos as atividades polticas na maior parte do pas devido ao nosso contato com os habitantes locais, e ao fato de que o dio destes contra aqueles criminosos traduz-se em apoio a ns.

Nossas atividades polticas incluem a publicao de revistas e artigos, a mobilizao de mulheres para que adquiram esta conscincia e, assim, juntem-se nossa luta. Coletamos e documentamos assassinatos, estupros, roubos, extorses e outros crimes desses senhores da guerra, nas partes mais remotas do Afeganisto.

Nossas atividades sociais so proporcionar educao s mulheres e no apenas as aulas de alfabetizao, mas tambm a conscincia social e poltica quanto aos seus direitos e como alcan-los -, ajuda emergencial, criao de orfanatos e atividades relacionadas sade.

Edu Montesanti: Como est o Afeganisto hoje, 15 anos aps a invaso norte-americana?

Friba: Os Estados Unidos cometeram crimes hediondos no Afeganisto na dcada passada, matando milhares de pessoas inocentes em ataques areos e incurses noturnas, e torturando os afegos inocentes em suas prises secretas dentro de suas bases militares.

O massacre de Bala Baluk na provncia de Farah em 2009, que matou 147 afegos inocentes, o massacre de Panjwai na provncia de Kandahar em 2012, que matou 16 afegos inocentes, a matana de doze crianas inocentes na provncia de Kunar em 2013, e o ataque ao hospital de Mdicos sem Fronteiras em 2015, na provncia de Kunduz, que matou 42 e feriu mais de 30 pessoas, so apenas alguns casos envolvendo derramamento de sangue causados por foras dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganisto.

Apesar disso, a maior traio dos Estados Unidos ao Afeganisto a reedio de criminosos fundamentalistas islamitas no poder. Como a histria tem mostrado sempre e o presente prova, nenhuma interveno ou ocupao estrangeira inteiramente bem-sucedida sem a cooperao de um grupo de traioeiros internos, mercenrios do pas ocupante.

Hoje, o Afeganisto governado por senhores da guerra fundamentalistas sanguinrios e criminosos que compactuam com a ideologia do Taliban, e que cometeram crimes piores do que os do Taliban no passado. A Aliana do Norte, composta pelos elementos mais traioeiros e misginos dos senhores da guerra e comandantes militares, foi imposta ao nosso povo atravs de trs eleies historicamente fraudulentas.

Esses criminosos provocaram a guerra civil de 1992 a 1996 que matou mais de 65 mil civis em Cabul, e saquearam a cidade. Suas milcias cometeram assassinatos sistemticos, estupros, estupros coletivos, extorses, roubos, detenes arbitrrias, cortaram os seios das mulheres, cravaram pregos em crnios, realizaram rituais de matana horrvel e centenas de outros crimes. Em vez de enfrentar a acusao nos tribunais internacionais por tais crimes, esses assassinos desfrutam da mais absoluta impunidade e engordam suas contas bancrias, com o apoio do Ocidente.

Inmeros relatrios de organismos internacionais como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional documentaram os crimes cometidos pelos poderosos senhores da guerra em todo o Afeganisto, tanto no passado quanto no presente. Apesar disso, sabemos que este apoio inabalvel e continuar por dcadas.

O novo governo do Afeganisto, denominado Governo de Unidade Nacional, dirigido pelos mercenrios de longa-data dos Estados Unidos, Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, ambos da Aliana do Norte que estavam unidos em um acordo quebrado por John Kerry, aps os dois no terem concordado com os resultados das fraudulentas e repugnantes eleies presidenciais, repleta de sujeira; o resultado daquelas eleies foi oficialmente lanado um ano depois!

O vice de Ashraf Ghani Rashid Dostum e outro foi Sarwar Danish, famosos criminosos enquanto os companheiros de chapa de Abdullah foram Mohammad Khan e Mohammad Mohaqiq, outros dois criminosos bem conhecidos. A primeira medida do novo governo foi assinar o Acordo de Segurana Bilateral, que legitima a presena a longo prazo dos Estados Unidos em nossa ptria, e foi o documento que oficialmente vendeu nossa independncia aos Estados Unidos.

No h nenhuma cara nova no governo. A nica diferena que, desta vez, os famosos criminosos das faces Khalq e Parcham, que eram marionetes da Unio Sovitica, tambm tm recebido uma parte do poder apesar de terem sido incriminados em uma Lista da Morte que revelou os nomes de cinco mil ativistas polticos e intelectuais, mortos pelo regime nas dcadas de 1970 e de 1980.

desnecessrio dizer que tal regime fantoche no pode trazer paz, liberdade, democracia, justia e os direitos das mulheres, mesmo que se submeta a eleies cem vezes.

Segundo a ONU, o alcance do Taliban hoje o mais amplo desde 2001. Os ataques suicidas do Taliban e a guerra constante entre o governo afego e Taliban, fizeram um inferno na vida do nosso povo. A taxa de mortalidade civil em 2015 foi a maior j registrada, sendo que grande parte das vtimas era composta de mulheres e crianas.

Enquanto as feridas que o Taliban causou ao nosso povo ainda esto sangrando, as negociaes de paz esto em andamento para incluir o Taliban no governo. Em vez de coloc-los em julgamento pelos crimes hediondos, esto sendo convidados para o governo com o objetivo de completar o crculo de fundamentalistas criminosos e mercenrios no Afeganisto. Como pode uma fora to criminosa trazer paz ao tomar o poder?

Hoje, a economia do Afeganisto est em frangalhos. Mais de 60 bilhes de dlares foram doados ao Afeganisto para o propalado esforo de reconstruo, mas nem sequer alguns centavos chegaram ao nosso povo enquanto encheram os bolsos da mfia, dentro e fora do governo. Nos ltimos treze anos nenhum projeto contribuiu para a reconstruo da base do pas. Nenhuma infra-estrutura bsica foi construda no pas, e o desemprego atinge novos picos a cada dia.

A pobreza e a fome no Afeganisto esto entre as mais altas do mundo, apenas comparvel s naes africanas. O Afeganisto tem a maior taxa de mortalidade infantil do mundo, milhes de pessoas sofrem de fome e desnutrio. 25% das crianas no Afeganisto trabalham para alimentar suas famlias, o que as impede de frequentar a escola e de ter acesso a outros direitos bsicos.

O Afeganisto foi considerado o pas mais corrupto do mundo nos ltimos anos. Graas invaso norte-americana, o Afeganisto hoje um narco-Estado. No apenas o maior produtor de drogas fornecendo 90% do pio mundial, mas tambm tem o maior ndice [proporcional, grifo nosso] de usurios de drogas, com cerca de trs milhes de viciados. Na recente entrevista coletiva de Londres, Ashraf Ghani afirmou que do lucro de 500 bilhes de dlares de drogas no Afeganisto, 480 bilhes fluram para a Europa.

Isto no apenas revela o fracasso do Ocidente em sua chamada guerra contra as drogas no Afeganisto, como tambm suscita dvidas em relao ao seu envolvimento neste negcio.

Edu Montesanti: Anos atrs, a escritora, ativista pelos direitos humanos e ex-parlamentar expulsa injustamente do cargo, Malala Joya, denunciou que a CIA segue coordenando o trfico de drogas a partir do Afeganisto. Em uma entrevista por correio eletrnico (censurada) ao jornal brasileiro O Tempo, mais tarde enviada para mim na ntegra tambm por correio eletrnico, ela afirmou que a economia de narcticos do Afeganisto um projeto traado pela CIA, apoiada pela poltica externa dos Estados Unidos. H relatos no Afeganisto de que at mesmo o Exrcito norte-americano est envolvido no trfico de drogas. A mfia da droga faz parte dos pores do poder, apoiada pelo Ocidente. O que voc pode dizer sobre isso?

Friba: Ns apoiamos fortemente esta declarao de Malala Joya, baseada em fatos.

A CIA tem uma longa histria de envolvimento no comrcio global de drogas em todas as partes do mundo, sob controle dos Estados Unidos ou onde Washington exerce considervel influncia. Alguns poucos casos foram investigados e expostos por jornalistas, mas a questo permanece encoberta.

A histria da CIA comeou na dcada de 1980. As drogas foram vistas como a maneira mais rpida e mais fcil de se obter dinheiro para financiar representantes da CIA e as foras paramilitares que os serviam, em diferentes pases. Gary Webb, o corajoso jornalista que exps o escndalo do trfico de drogas dos Contra da Nicargua, e que acabou sendo levado ao suicdio por uma extensa campanha de difamao pela grande mdia, descreveu o processo desta maneira:

Ns [CIA] precisamos de dinheiro para uma operao secreta, e a maneira mais rpida para aument-lo vendendo cocana; vocs a vendero em algum lugar, no queremos saber nada sobre isso.

Essa ttica funcionou com muito sucesso no Afeganisto durante a Guerra Fria, quando as foras mujahideen que servem os EUA foram financiadas atravs das drogas.

Antes da invaso dos Estados Unidos em 2001, os campos de plantao de papoula foram erradicadas pelos talibans. Logo aps a invaso dos Estados Unidos, a produo de drogas comeou a aumentar drasticamente, e hoje o Afeganisto produz 90% do pio do mundo, beira de se tornar um narco-Estado. H relatos de que as foras norte-americanas admitem que as drogas so transportadas a partir do Afeganisto em avies norte-americanos.

Ahmed Wali Karzai, irmo do fantoche dos EUA, Hamid Karzai, ex-governador hoje morto na provncia de Kandahar, foi ao mesmo tempo o maior traficante no apenas do Afeganisto, mas da regio. O tempo todo, ele esteva na folha de pagamento da CIA.

Houve, at mesmo, alegaes por parte de oficiais norte-americanos diretamente envolvidos nas operaes de drogas no Afeganisto sobre o envolvimento da CIA. Um agente da DEA [Drug Enforcement Administration, agncia de fachada dos Estados Unidos, teoricamente anti-narcticos que funciona como rgo da agncia de inteligncia norte-americana em todo o mundo], Edwrad Follis, afirmou que a CIA fechou os olhos para o trfico de drogas no Afeganisto. Mais recentemente, John Abbotsford, ex-analista da CIA e veterano de guerra que lutou no Afeganisto, confessou que a CIA desempenhava seu papel em operaes de contrabando de drogas.

Mesmo se excluirmos estas reivindicaes e relatrios, difcil acreditar que uma superpotncia que possui a mais moderna tecnologia em vigilncia e coleta de informaes, no consegue encontrar campos de pio e nem rastrear rotas de fornecimento dentro de um pas que ocupa. O fato de que 8 bilhes de dlares foram gastos em esforos de erradicao da droga durante a ltima dcada, mas a produo de pio tem apenas subido, por si s uma indicao de que o negcio da droga serve a algum interesse dos Estados Unidos no Afeganisto, ou que teria sido concludo h muito tempo.

Outras protagonistas desses to chamados esforos antinarcticos so empresas privadas norte-americanas que ganham milhes de dlares por meio de contratos antinarcticos. Uma das maiores beneficirias a notria empresa militar Blackwater, agora conhecida como Academi que, de acordo com a [rede de notcias] Russia Today, ganhou 569 milhes de dlares atravs desses contratos. Empreiteiras privadas tm uma enorme parcela sobre os lucros da guerra no Afeganisto, e essa fracassada guerra s drogas proporciona enormes lucros a elas.

Na verdade, uma das razes para a invaso do Afeganisto pelos Estados Unidos que os norte-americanos devem manter o controle sobre o negcio de narcticos, terceiro mais importante produto de comrcio em termos de rendimento, depois do negcio das armas e do petrleo.

Edu Montesanti: Qual a situao das mulheres no Afeganisto hoje, as quais os Estados Unidos prometeram libertar da forte misoginia local em 2001?

Friba: A terrvel situao das mulheres afegs sob o regime de mentalidade medieval do Taliban foi explorada pelos Estados Unidos como uma das principais razes para invadir o Afeganisto em 2001. Vejamos como esta libertao foi cumprida.

Como todas as pessoas do Afeganisto, as mulheres esto esmagados entre diversas foras em uma guerra contnua, e a insegurana que assola nosso pas por mais de uma dcada: os Estados Unidos e seus aliados, os jihadistas e fundamentalistas do Taliban, e o recm-surgido ISIS [Estado Islamita].

O Parlamento tentou legalizar o apedrejamento at a morte por adultrio, a surra na esposa e assassinato em nome da honra [do homem]. A maioria das mulheres em prises afegs hoje foram condenadas pelo Judicirio misgino por crimes morais, tais como fugir de casa de maridos e de sogros crueis, fugir com amante, etc.

Inmeros casos de amarrao pblica e execues foram realizados pelos tribunais simulados de talibans, senhores da guerra locais e muls em todas as partes do Afeganisto.

A situao das mulheres hoje catastrfica. A violncia contra as mulheres subiu a nveis sem precedentes hoje. As mulheres sofrem de violncia domstica, estupro, estupro coletivo, abuso sexual, homicdio, imolao, o assassinato honroso, casamentos forados a menores de idade com homens muito mais velhos que elas, troca de meninas no casamento por mercadorias, e dezenas de outras desgraas semelhantes. As meninas tm sido torturadas nos pores, tm tido narizes, lbios e orelhas decepados, tm sido privadas de comida e espancadas at a morte, pelas famlias ou pelos sogros. O que ficamos sabendo atravs da mdia apenas a ponta do iceberg.

Em 2001, os Estados Unidos e seus aliados usaram a situao das mulheres afegs como pretexto para ocupar o Afeganisto; eles usaram especialmente a imagem de uma mulher afeg chamada Zarmina, assassinada publicamente pelo Taliban no estdio esportivo de Cabul. Contudo, apenas algumas semanas atrs uma mulher afeg foi executada publicamente de maneira semelhante, e os meios de comunicao ocidentais fecharam os olhos diante disso, e ainda no relataram o fato.

As taxas de auto-imolao atingiram novos picos. Muitas mulheres queimam-se vivas ao no enxergar outra soluo aos seus problemas. Os legisladores, magistrados e policiais em todo o Afeganisto so fundamentalistas misginos que impem suas mentalidades anti-feministas em forma de leis, e oferecem impunidade total aos autores desses horrendos crimes. natural que, em tal situao, a violncia contra as mulheres apenas vai continuar subindo.

No ano passado, o Afeganisto testemunhou o crime mais horrvel j cometido contra uma mulher afeg em plena luz do dia, no centro de Cabul, debaixo o nariz dos policiais locais e do governo. Farkhunda, estudante de 26 anos de idade, foi linchada por uma multido de bandidos que, falsamente, acusaram-na de ter queimado o Alcoro. Ela levou chutes, socos, foi atropelada por um carro, apedrejada e, em seguida, queimada e jogada no seco rio de Cabul. A maioria dos assassinos de Farkhunda foram liberados dias aps a deteno. Dos quatro detidos, um foi condenado a apenas dez anos de priso, e os outros trs a 20 anos. Suas penas de morte foram revogadas em sesses de julgamento ridiculamente curtas.

Mais tarde, ainda no ano passado, Rukhshana de 19 anos foi apedrejada at a morte por um tribunal desonesto do Taliban em uma provncia ocidental do Afeganisto dominada por muls, por ter fugido. Seus gritos ecoaram por todo o pas enquanto ela era lentamente assassinada por uma multido enfurecida de talibans. Uma delegao foi enviada por Ashraf Ghani, presidente afego, para investigar e punir os autores dos crimes. A delegao foi chefiada por um mul, que apoiou o Taliban e defendeu abertamente o apedrejamento da jovem como sendo islamita e juridicamente legal, alguns dias aps o incidente. A investigao foi, sem surpresa, intil.

Talvez o reflexo mais claro da mentalidade da atual legislatura partiu de Nazir Ahmad Hanafi, proeminente legislador afego cuja acalorada entrevista com Isobel Yeung culminou com uma evidente ameaa: Talvez eu devesse entregar-lhe a um afego para que decepasse seu nariz, em referncia mutilao de uma jovem de 20 anos, Reza Gul, que teve o nariz mutilado pelo esposo pelo crime moral de ter fugido de casa.

O Afeganisto ainda tem uma das mais altas taxas de mortalidade materna do mundo, com milhares de mulheres morrendo durante o parto a cada ano. A taxa de alfabetizao oficial est em 18%, ainda que considerando a realidade do territrio nacional a taxa seja muito menor que essa. O Afeganisto , com razo, chamado de um dos piores lugares para ser mulher.

Os Estados Unidos tm feito uma piada em nome da democracia e com os direitos das mulheres em nosso pas, apoiando os criminosos mais misginos do governo, e descaradamente usando a presena simblica de funcionrias governamentais, do sexo feminino, para enganar o mundo sobre a situao real. A maioria dessas mulheres esto vinculadas aos mesmos partidos fundamentalistas e criminosos, e so to antidemocrticas e misginas quanto seus homlogos masculinos. Os outros esto, simplesmente, usando esta oportunidade para engordar suas contas bancrias com a corrida do ouro da ajuda externa.

As outras realizaes das mulheres, tais como reabertura de escolas e de postos de trabalho para mulheres, so limitadas a algumas cidades urbanas do Afeganisto com a maioria das mulheres ainda sofrendo com o atual fogo do Inferno.

Neste momento, o governo fantoche afego est negociando com Gulbuddin; quer tirar seu nome da lista negra da ONU, dar-lhe proteo jurdica e impunidade. Mas este o mais notrio senhor da guerra afego, e maior inimigo dos direitos das mulheres que costumava jogar cido no rosto de mulheres, publicamente.

Os Estados Unidos usam esses ganhos superficiais como pretexto para darem seguimento ocupao militar no Afeganisto, ameaando que eles sero perdidos aps sua chamada retirada. uma verdade fundamental que os ganhos hard-lutou feitas pela verdadeira luta das mulheres nunca so perdidas, e os EUA usa essas mudanas cosmticas como uma cortina de fumaa para justificar a sua invaso ao povo do mundo.

Edu Montesanti: Como o povo afego, em geral, v a longa ocupao dos Estados Unidos?

Friba: Os afegos esto fartos, sabem que o Ocidente os traiu, que vieram com longas alegaes de direitos humanos, direitos das mulheres e democracia, mas na verdade eles empurraram o Afeganisto no sentido de desastres e de um Estado mafioso, e tudo o que fizeram foram apenas mudanas cosmticas.

Eles esto fartos dos crimes e brutalidade das foras dos Estados Unidos no Afeganisto ao longo dos ltimos 15 anos, porque dezenas de milhares de afegos foram mortos por suas bombas e tiroteios, e na verdade o terrorismo foi ainda mais alimentado que antes.

Eles esto fartos com o fato de que o Ocidente est contando com as bandas mais brutais e desumanas, e em nome da Guerra ao Terror, na verdade, apoia terroristas e usa o terrorismo como uma arma para derrotar seus rivais como Rssia e China.

Edu Montesanti: Quanto os Estados Unidos so sinceros em libertar o Afeganisto? Voc acha que os Estados Unidos desejam um Afeganisto instvel?

Friba: O clamor dos Estados Unidos e da OTAN de libertar o Afeganisto apenas slogan barato, e na verdade eles so invasores e destruidores da libertao. Os Estados Unidos no tm interesse na prosperidade do Afeganisto. Na verdade, a instabilidade, a insegurana, a pobreza, o analfabetismo e outros problemas sociais e econmicos profundamente arraigados ajudam os Estados Unidos e seu governo fantoche a permanecer no poder, sem nenhuma oposio do povo.

Na verdade, o governo dos Estados Unidos tem as mos sujas de sangue diante dos acontecimentos das ltimas quatro dcadas no Afeganisto. Eles apoiaram elementos armados, sedentos de sangue em nosso pas, e levaram o Afeganisto a essa atual condio desastrosa. Se os Estados Unidos quisessem estabilidade e prosperidade, teriam dado os bilhes de dlares de ajuda para investimentos em infra-estrutura bsica e no para encher os bolsos dos senhores da guerra e ONGs corruptas, que prosperaram sob a ocupao norte-americana. Esta corrida do ouro levou o Afeganisto a se tornar o pas mais corrupto do mundo.

Os Estados Unidos e a OTAN tentam transformar no s o Afeganisto, mas toda a sia em uma regio instvel. Enquanto a economia mundial se volta para a sia com grandes potncias, como Rssia, China, ndia, etc, os Estados Unidos contam com o terrorismo como arma para bloquear o progresso especialmente de Rssia e China, e causam problemas para estes pases.

O Afeganisto tornou-se centro deste jogo de poder entre as grandes potncias, mais uma vez. Igualmente, temos relatos de que a Rssia tambm arma o Taliban e os senhores da guerra no Afeganisto, para combater o plano dos Estados Unidos de exportar o terrorismo para repblicas da sia Central e prpria Rssia. Neste jogo, em que ambos os lados usam o terrorismo como arma, os afegos esto enfrentando um banho de sangue e as coisas esto progredindo rapidamente em direo a novas guerras, e mais derramamento de sangue.

Edu Montesanti: E por que, exatamente, os Estados Unidos esto to interessados no Afeganisto, a seu ver?

Friba: Neste ponto, depois de mais de uma dcada de agresso dos Estados Unidos em vrios pases da regio, achamos que no resta nenhuma dvida na mente de ningum de que os Estados Unidos esto presentes em nosso pas, e em outros pases, por seus prprios interesses.

A posio geopoltica do Afeganisto oferece aos Estados Unidos vantagem nica na regio: acesso aos seus maiores rivais em todo o mundo, Rssia, China, ndia e Ir. Os Estados Unidos construram [no Afeganisto] bases militares gigantescas e sua segunda maior Embaixada no mundo, e tem milhares de militares e empreiteiros privados estacionados em diferentes partes do Afeganisto.

Essas bases militares oferecem pontos tentativa dos Estados Unidos de manter seus adversrios sob seus domnios, e de continuar perseguindo seus principais objetivos na regio. Alm disso, e talvez mais importante, o governo traioeiro e fundamentalista do Afeganisto, junto de uma populao desgastada com a guerra que tem sido executada por quatro dcadas, muito cansada de lutar novamente, proporciona as condies ideais para as operaes dos Estados Unidos aqui.

Os traidores do Estado afego no apenas venderam o Afeganisto, mas tm mantido silncio sobre os crimes brutais das foras dos Estados Unidos, e defendido todos os seus atos de agresso no pas.

Os afegos sabem agora que os Estados Unidos, simplesmente, usam o Afeganisto como frente na sia para avanar sua agenda regional, que promover terrorismo para transformar a sia em ponto efervescente na terra com o intuito de deter o avano das emergentes potncias militares e econmicas no continente.

Se voc acompanhar cada mudana significativa na situao do Afeganisto como a transferncia do Taliban e da guerra, a insegurana, o terror e a agitao que automaticamente vem em seguida para as regies do norte, tudo isso eles serve a um certo interesse de os Estados Unidos. Neste caso, estaria gerando instabilidade nas proximidades da Rssia, e at mesmo a instigando.

importante salientar aqui que, ao contrrio do geralmente propagado sobre os talibans como lacaios do Paquisto e, em menor medida, do Ir, a verdade que em ltima anlise so os Estados Unidos quem esto segurando a coleira desses indivduos violentos.

Os talibans so a fora de reserva dos Estados Unidos, que iro utiliz-los sempre que virem necessidade para isso. No segredo que o regime sanguinrio taliban foi criado e alimentado pelos Estados Unidos, e ser usado sempre que for necessrio.

O Taliban serve a um duplo propsito para os Estados Unidos hoje: eles justificam a continuao da Guerra ao terror, e serve como seus procuradores em partes do Afeganisto que no esto sob o controle do propalado governo [nacional].

Hoje, nada no Afeganisto pode ocorrer ou ser alterado sem autorizao do Estados Unidos, e seria muito ingnuo pensar de outra forma. Esta situao tambm expe a mentira que o governo dos Estados Unidos disse ao mundo em 2014 sobre o trmino de sua guerra no Afeganisto, retirando as tropas e acabando com a guerra no Afeganisto. Os Estados Unidos continuam tendo uma forte presena no Afeganisto para fins geoestratgicos.

Edu Montesanti: Se eu bem compreendi, Friba, voc quer dizer que o Afeganisto est pior agora que antes da invaso liderada pelos Estados Unidos.

Friba: Sim, absolutamente. Para alm do que mencionei anteriormente, se considerarmos apenas a deteriorao da situao de segurana, vital s pessoas mais que comida e gua, podemos entender o quanto a situao est pior do que antes em todo o Afeganisto.

O pio outro vrus mortal que infecta nossa nova gerao, e ainda mais perigoso do Taliban e da Al-Qaeda. O nmero de civis mortos em ataques suicidas por talibans, os ataques noturnos e os ataques areos das foras dos Estados Unidos, e os crimes das milcias dos senhores da guerra locais em diferentes partes do Afeganisto aumentam a cada ano.

A economia do pas est em runas, controlada pela mfia que traa o apoio de poderosos funcionrios do governo afego. Os Estados Unidos e a OTAN invadiram o Afeganisto com importantes alegaes de reconstruo do Afeganisto, mas no vemos nenhum crescimento em nenhum setor fundamental do Afeganisto.

Apenas a mfia e as ONGs tm crescido em nmero e tamanho. Os afegos so o segundo maior grupo de migrantes do mundo, enquanto os jovens se engajam em viagens perigosas a fim de escapar da misria em suas casas. Muitos jovens hoje so viciados em drogas.

Nas reas mais isoladas, a pobreza e o desemprego tm levado os jovens a se juntar ao Taliban e ao ISIS [Estado Islamita] j que estes fornecem necessidades bsicas, e s vezes at pagam salrios. As mulheres afegs so to reprimidas e esto sob constante ataque quanto estavam sob a regra medieval do Taliban.

Governos vizinhos como Ir e Paquisto nunca tiveram mos to manchadas de sangue diante dos assuntos do Afeganisto, como atualmente.

Este apenas um breve resumo da situao desastrosa do pas, mas o suficiente para mostrar a devastao que os EUA trouxe sobre o nosso pas e as pessoas.

Edu Montesanti: Como voc disse, a histria e os acontecimentos atuais mostram que ocupao nunca bem-sucedida. Que alternativas a RAWA defende a fim de mudar definitivamente a catastrfica realidade do Afeganisto? Voc v ajuda externa como produtiva para efetivamente libertar o povo afego dos personagens e dos grupos altamente violentos, mencionados por voc? Se assim for, quem e como poderia ser prestada uma ajuda eficaz ao Afeganisto?

Friba: Sempre dissemos que a independncia de um pas a primeira condio para democracia, liberdade e justia. H poucos, ou nenhum exemplo na histria em que a interveno estrangeira libertou ou ajudou uma nao, e nos ltimos 14 anos da ocupao norte-americana do Afeganisto uma prova disso.

Os Estados Unidos no apenas no libertaram o Afeganisto, mas impuseram ao nosso povo os maiores inimigos, os criminosos fundamentalistas. Os Estados Unidos so o criador e educador desses violentos grupos. uma poltica consciente do governo dos Estados Unidos formar parceria com fundamentalistas islamitas onde quer que ele entra em cena. Vimos isso na Lbia e na Sria tambm. Os Estados Unidos afirmam estar combatendo o terror, mas os maiores terroristas, os criminosos da Aliana do Norte foram levados ao poder pelos prprios Estados Unidos. Contudo, isso no causou nenhuma surpresa. Logo no incio da invaso norte-americana ao Afeganisto, a RAWA declarou que o propsito desta agresso era servir aos objetivos imperialistas dos Estados Unidos, e que naquela tragdia faria parceria com os piores inimigos do nosso pas. O que menos importa aos Estados Unidos o bem-estar do Afeganisto e do seu povo. A situao atual do nosso pas, prova disso.

A chave para a liberdade e para a democracia est em uma luta unida, organizada do nosso povo. Uma luta rdua que seja, mas no h outra maneira de sair deste atoleiro. Apenas as pessoas de um pas podem decidir seu destino, e construir um sistema que lhes serve.

A solidariedade das pessoas libertrias e amantes da paz em todo o mundo muito importante no fortalecimento da luta do nosso povo, tambm. Este ser um processo longo e difcil, mas os afegos no tm outra alternativa seno unir-se e lutar por liberdade, democracia, justia e libertao.

Edu Montesanti: A RAWA defende um Afeganisto laico ou islamita, fundamentado na sharia?

Friba: Secularismo tem sido o slogan da RAWA desde sua fundao. Acreditamos que a democracia no tem sentido sem o secularismo. A religio tem sido historicamente utilizada como meio para manter o poder daqueles que governam, e em uma sociedade onde as pessoas so profundamente religiosas, a combinao entre Estado e religio particularmente perigosa.

Hoje no Afeganisto, a maior ferramenta de fundamentalistas atuais na utilizao da fora para defender seus atos e se proteger, o Isl. Todos os criminosos fundamentalistas no poder encobrem seus crimes usando o Isl. Este tem sido utilizado para anular a indignao das pessoas, e o desejo delas de se levantar e de lutar por seus direitos.

O Taliban tem sido capaz de transformar jovens inocentes em mortais atacantes suicidas, atravs da lavagem cerebral baseada em ideias religiosas. Infelizmente, esse mau uso da religio tem servido muito bem.

Por essa razo, o secularismo vital ao nosso pas hoje, para extirpar o fundamentalismo e construir uma sociedade livre desse vrus mortal. S assim o Afeganisto pode dar um passo em direo ao progresso e prosperidade.

Edu Montesanti: A misoginia senso-comum no Afeganisto, ou reduzida aos senhores da guerra e ao Taliban?

Friba: No h dvida de que o Afeganisto atormentado pelo atraso, cultural e economicamente. Durante sculos, os monarcas reacionrios injetaram e utilizaram ideias reacionrias para manter-se no poder. No entanto, nas ltimas trs dcadas, quando os fundamentalistas islamitas dominaram o Afeganisto, o atraso do pas tornou-se mais comum e extremo que nunca.

Um dos aspectos do Isl amplamente propagado por radicais islmicos, a degradao e a opresso das mulheres, vistas mais como animais que como seres humanos. As mulheres vivem apenas para serem vistas como servas que trabalham em casa, dar luz a filhos e satisfazer as necessidades sexuais dos homens.

A violncia familiar um dos mais desgastantes e dolorosos problemas das mulheres no Afeganisto, assim como na maioria dos outros pases muulmanos, e principalmente apoiada pelos governos de linha dura. Este problema, em parte alimentado com os ensinamentos islamitas que so dados aos homens e mulheres desde a infncia.

H versos do Alcoro a este respeito, que dizem que:

Suas mulheres so uma lavoura para voc (cultivar); assim, v sua lavoura como quiser (2: 223)

Os homens esto a cargo das mulheres Quanto quelas a quem vocs temem rebelio, as admoestem e as isolem em camas separadas (04:34)

H um monte de versos deste tipo no Alcoro. Homens justifica sua superioridade e o tratamento desumano e relao s mulheres com base e, tais versos. E, claro, em uma srie de declaraes do profeta Maom ou de outras fontes religiosas, e sobre uma grande quantidade de poemas e histrias; alis, poetas populares reforam estes versos e, todos juntos, afetam homens de maneira to malfica que se eles tratam as mulheres com ligeira humanidade e bondade, sentem-se como se estivessem cometendo o maior pecado de suas vidas! Nos livros e fontes mencionadas, existem algumas palavras de compaixo e bondade para com as mulheres, mas fracassaram em proteger as mulheres do sofrimento contra elas.

Nos pases muulmanos onde os princpios seculares tm encontrado algum espao dentro da sociedade, a profundidade desta violncia no to ruim quanto naqueles infestados pelo fundamentalismo.

Edu Montesanti: As ativistas da RAWA acreditam no Alcoro? Qual a religio das mulheres da RAWA?

Friba: Acreditamos que a religio um assunto completamente pessoal, e que no importa para ns se algum na RAWA religiosa ou no. O que importante para ns que elas sejam livres do aspecto reacionrio da religio que impede qualquer luta, especialmente a luta revolucionria.

Os versos mencionados so amplamente utilizados por clrigos fundamentalistas para justificar seu tratamento desumano contra as mulheres, e para encorajar este tratamento entre as pessoas. Enquanto nossa luta no tem como objetivo a prpria religio, em vez daqueles elementos que abusam de religio, esses versos tm de ser mencionados como eles so os mais comumente usados.

Ns acreditamos em secularismo, o qual simplesmente separa Estado e religio e que tem o maior respeito por quaisquer crenas pessoais, de qualquer um. Toda a nao do Afeganisto, salvo uma minoria muito pequena, muulmana, mas ela seguem apenas as boas aes estabelecidas pelo Isl e nunca o usa para justificar maus tratos contra mulheres, contra os no-muulmanos, etc. Esta verso do Isl respeitada por ns, mesmo que no seja aceita como parte de nossas crenas.

Sua pgina sobre cultura afeg parece tima [Cultura & Arte Afeg, em www.edumontesanti.skyrock.com]. No entanto, existem algumas prticas culturais importantes do Afeganisto que so completamente ignoradas. O evento que voc descreveu, o Eid, uma celebrao religiosa. Os fundamentalistas afegos acabaram propagando o Eid como a celebrao mais popular do Afeganisto devido ao seu aspecto islamita.

No entanto, isso no verdade. Os afegos seguem o calendrio solar e comemorar seu ano novo em 20 ou 21 de maro de cada ano. Isso chamado de Nowroz Novo Dia. As pessoas usam roupas novas, vo a piqueniques com suas famlias e comemoram com msica e dana. Eles fazem um prato de doce de sete frutas secas embebidas em calda doce, e cozinham o prato tradicional de arroz branco com espinafre. Esta tradio vem de antepassados afegos no-islamitas, os Zardosht ou aqueles que adoravam o fogo. o acontecimento mais amplamente comemorado no Afeganisto.

Mesmo dcadas de guerra e de dominao fundamentalista no foram capazes de apagar essa tradio. Por favor, d uma olhada nisto: Why Afghanistans Nowruz has been interrupted. Este acontecimento particularmente importante, uma vez que remete aos nossos primeiros ancestrais quando o Isl no era nem nascido ainda. Mais importante, apesar da propaganda generalizada e dos esforos por parte do clrigo, tanto do Taliban quanto do governo, as pessoas comemoraram amplamente o evento deste ano, e continuaro a faz-lo.

Edu Montesanti: Como vivem as ativistas da RAWA, especialmente com seus cnjuges em uma sociedade altamente misgina como esta? Como seus maridos aceitam e o quanto apoiam seus pontos de vista revolucionrios?

Friba: As ativistas da RAWA so mulheres de excepcional sorte em uma sociedade devastada. Nossos maridos e outros familiares do sexo masculino so muito favorveis, apesar de no desempenharem nenhum papel na organizao, propriamente. Na verdade, temos um grupo muito grande de apoiantes do sexo masculino.

H outros grupos revolucionrios e de esquerda no Afeganisto que so predominantemente comandados por homens ao contrrio de nossa organizao, somente feminina que nos apoiam tambm. Nosso prprio lder, o marido de Meena, Faiz Ahmad, o lder da Organizao de Libertao Afeganisto, organizao de esquerda radical que existe at hoje e nica organizao de esquerda que sobreviveu opresso de quatro dcadas de guerra.

Faiz Ahmad foi assassinado alguns meses antes de Meena, pelo mesmo criminoso Gulbuddin Hekmatyar, quem tambm matou Meena. As atividades de Meena e de Faiz tinham se tornado um espinho nos olhos dos fundamentalistas islmicos no Paquisto e da inteligncia secreta do Afeganisto, por isso foram mortos.

Edu Montesanti: Como voc avalia a cobertura do Afeganisto por parte da mdia predominante? Como a RAWA avalia as organizaes internacionais de direitos humanos, e a posio da chamada comunidade internacional relativos Questo Afeg?

Friba: No mais segredo que a grande mdia utilizada como uma arma nas guerras modernas. A grande mdia mundial, em especial a dos Estados Unidos, tem servido aos propsitos imperialistas dentro de seus pases melhor que qualquer outra ferramenta.

Os povos desses pases no tm a verdadeira imagem das guerras dos Estados Unidos para tomar decises adequadas e bem-informadas sobre elas. O Afeganisto raramente faz parte de alguma cobertura e quando vira notcia, sistematicamente noticiado de acordo com a poltica geral dos Estados Unidos.

Os crimes das foras dos Estados Unidos tais como assassinatos, torturas e ataques noturnos nunca sero mostrados, assim como a insegurana e a instabilidade do nosso pas, e da situao devastadora das mulheres e das pessoas no recebe nenhuma ateno. So mostrados os horrores dos crimes do Taliban para justificar a guerra dos Estados Unidos, ou isoladas histrias de sucesso para pintar um quadro cor-de-rosa da situao do Afeganisto.

Com que frequncia as pessoas so incentivadas a discutir o envolvimento dos Estados Unidos em guerras pelo mundo, fornecendo-lhes fatos verdadeiros? O mesmo vale para outros pases onde os crimes de ditadores como Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar Assad so enviados continuamente, mas a completa devastao do Iraque e da Lbia pelas foras dos Estados Unidos e de seus governos fantoches, e o apoio incondicional dos Estados Unidos aos elementos do Estado Islamita (renomeado de Al-Nusra e Al-Qaeda, por exemplo) na Sria nunca so mostrados. Na verdade, eles encontram formas cobrir com cal tais aes dos Estados Unidos.

Enquanto algumas organizaes internacionais de direitos humanos tm desempenhado importante papel no Afeganisto em quatro dcadas de guerra documentando crimes, publicando relatrios e chamando a ateno do mundo para estas questes, o mesmo no pode se dizer em relao a toda a comunidade internacional. A comunidade internacional e seus parceiros no Afeganisto tm sido envolvidas apenas em questes superficiais que no tm nenhuma relevncia ao povo afego, tais como projetos de curto prazo e a instituio de ONGs inteis. Eles no tm lanado luz sobre o conjunto de questes fundamentais do Afeganisto como a ocupao norte-americana, a presena de fundamentalistas no poder e seus crimes. De fato, eles do uma mo amiga aos principais meios de comunicao do mundo para retratar a situao no Afeganisto como melhor do que era h 15 anos.

Mas claro que a mdia alternativa como Democracy Now!, etc, reflete a realidade, mas suas reportagens so enterradas sob as peas de propaganda veiculadas pelos grandes meios de comunicao, tais como CNN, BBC, AP, Fox News, etc, que tm grande cobertura e recursos para fazer as pessoas de bobas.

Edu Montesanti: Quem so os maiores inimigos dos afegos?

Friba: Os afegos so esmagados entre quatro inimigos atualmente: as foras dos EUA e da OTAN, os criminosos e senhores da guerra da Aliana do Norte no governo, o Taliban e um Estado Islamita emergente.

Os Estados Unidos tm gerado todos esses elementos fundamentalistas criminosos, e ainda tm licena para cumprir seus propsitos na regio. Isso significa que os criminosos da Aliana do Norte apreciam a maior parte do apoio ocidental, tanto financeira quanto politicamente, o que os torna mais perigoso que outros bandos. A crueldade do Taliban e do Estados Islamita bem conhecida do mundo, e recebem apoio militar e financeiro dos Estados Unidos, do Paquisto e at mesmo do Ir.

Todos esses inimigos so poderosos e controlam diferentes partes do pas. Nas batalhas entre essas foras, nos terrveis ataques areos, suicidas e de foguetes levados a cabo por eles, apenas nosso povo sofre.

Edu Montesanti: Quais as perspectivas da RAWA para o Afeganisto diante do atual cenrio? O que voc gostaria de dizer ao mundo e, em especial, para o Ocidente, para os norte-americanos e ao governo deles?

Friba: Se a situao poltica do Afeganisto permanece inalterada, a situao atual apenas vai se tornar mais sombria. O povo do Afeganisto continuar sofrendo com insegurana, pobreza, corrupo, desemprego e outros problemas devastadores. Nosso povo vai continuar sendo vtima dos crimes das foras dos Estados Unidos, dos senhores da guerra, do Taliban e dos jihadistas. H apenas um caminho para a atual situao poder mudar: atravs das prprias pessoas que lutam por seus direitos e por um pas melhor, contra seus principais inimigos, os senhores da guerra dos EUA, o Taliban, jihadistas).

No temos nada a dizer aos governos ocidentais que tm o sangue de nossos pessoas inocentes manchados em suas mos. Nossa mensagem s pessoas amantes da paz destes pases que eles tm que enxergar a realidade do Afeganisto, e de todos os outros pases que os Estados Unidos invadiram. O que eles veem como raras notcias da situao catastrfica nesses pases, a realidade cotidiana do povo.

Eles precisam pressionar seus governos para que mudem esta poltica de invases e de ocupao, e serem solidrios s pessoas que so vtimas dessas guerras. Esta solidariedade internacional fortalecer a luta pela liberdade e pela democracia nesses pases.

Eles devem saber que o imposto que pagam usado por seus governos para tornar o Afeganisto e outros pases em guerra em um Inferno, que ir impactar diretamente suas vidas e tornar os pases ocidentais inseguro, como o que testemunhamos hoje nas cidades europeias.

Originalmente publicado em 23 de janeiro de 2017

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